
A adolescência sempre foi uma fase turbulenta da vida. Pessoalmente, uma das piores e melhores fases para mim. Piores pela construção de caráter misturada com hormônios, confusão emocional e tentativa de ser adulto antes do tempo. Melhores pela - ilusória - falta de responsabilidade, e eu já falo mais sobre isso. Com a chegada da internet, as coisas tomaram um rumo inesperado. Mesmo com tanta informação fácil e rápida nas mãos, o aumento da exposição digital, os riscos da violência juvenil, a pressão social e psicológica e a sensação constante de vigilância tornam essa fase ainda mais delicada.
A minissérie britânica Adolescência, lançada pela Netflix, tem levantado reflexões profundas sobre o que significa crescer neste ambiente online. Em quatro episódios, acompanhamos a história de Jamie Miller, um jovem de 13 anos acusado do assassinato de uma colega de escola. Mais do que uma trama policial, a série apresenta um retrato imersivo das complexidades emocionais e sociais da juventude contemporânea.

Um dos aspectos mais marcantes da série Adolescência é sua abordagem cinematográfica. Toda a narrativa é filmada em plano-sequência, ou seja, sem cortes aparentes. Essa técnica, além de ser um desafio técnico impressionante, contribui para a imersão total do público.
O plano-sequência cria a sensação de que estamos acompanhando os personagens em tempo real, sem pausas ou interrupções. Isso torna a experiência mais intensa e angustiante, pois nos coloca dentro das situações vividas por Jamie e seus colegas. Na adolescência, os acontecimentos surgem de forma rápida e imprevisível. A ausência de cortes reflete essa dinâmica, fazendo com que o espectador se sinta parte do turbilhão emocional da trama.
A escolha do plano-sequência na série não é apenas uma decisão estilística. Ela tem um propósito que contribui muito para o desenvolvimento da história: transmitir a ideia de que a vida não tem cortes. Os adolescentes estão constantemente imersos em situações complexas, sem pausas para respirar ou processar o que está acontecendo.
Esse realismo também reflete o estado emocional dessa fase da vida. Tudo é vivido de forma intensa, seja um amor, uma briga ou uma decepção. A ausência de cortes na narrativa reforça a sensação de urgência e desesperança que muitos adolescentes sentem. A história é um retrato de jovens que vivem sob constante pressão e que, muitas vezes, são levados ao limite sem perceberem.

O caso central da série – um assassinato dentro do ambiente escolar – levanta questões sobre a violência juvenil e suas causas. Embora a juventude sempre tenha sido um período de experimentação e conflito, os níveis de agressividade parecem ter se intensificado nos últimos anos.
A ideia de que mais informação resultaria em menos casos de violência juvenil não se sustenta por completo. Se pensarmos bem, quanto mais informação, mais possibilidades e estratégias os adolescentes encontram para utilizar esse meio de forma negativa.
Destaco um momento da série em que um dos estudantes explica algo aparentemente simples: o uso de emojis. Para a maioria de nós, eles são apenas símbolos inofensivos que tornam as mensagens mais dinâmicas. No entanto, o personagem nos mostra que cada emoji possui um significado específico e pode ser usado como ferramenta de ataque sem deixar pistas evidentes – uma linguagem única dentro da comunidade adolescente.
A sociedade, de certa forma, tem contribuído para essa atmosfera de hostilidade. As redes sociais expõem os jovens a um julgamento constante, onde a pressão por aceitação e perfeição pode ser esmagadora. Qualquer deslize pode se transformar em um escândalo virtual, e a linha entre realidade e ficção se torna cada vez mais tênue.
E aí que entra o ponto sobre ser uma das melhores fases pela ilusória falta de responsabilidade. Sem contas para pagar, decisões complexas para tomar ou um peso real sobre os ombros, parece que essa fase da vida é um período de leveza e despreocupação. Sendo que esta fase é o momento crucial para justamente aprender sobre responsabilidade. Por qual motivo um jovem que comete um crime poderia pensar que sairia impune?

Outro momento marcante da série acontece no episódio 3 (inclusive o primeiro episódio gravado), quando o protagonista conversa com uma psicóloga. Um dos pontos que ele sempre traz de forma “inocente” é sua preocupação com a própria aparência. Ele acredita ser um garoto feio e, por isso, destinado à solidão. Um dos motivos do garoto ter de fato realizado o crime.
Esse discurso ressoou em mim, pois passei pelo mesmo processo. O bullying que sofri por conta da minha aparência me levava a acreditar que não era atraente e, portanto, que sempre estaria sozinha. Hoje, aos 27 anos, percebo o quão precoce e intenso era esse pensamento.
Na era digital, a adolescência é vivida sob holofotes. As redes sociais funcionam como vitrines, onde cada jovem exibe sua melhor versão – ou, pelo menos, a versão que acredita ser mais aceita. Isso sempre foi comum nessa fase da vida, mas a internet amplificou essa dinâmica, gerando uma sensação constante de inadequação e tornando a comparação inevitável.
No caso de Adolescência, a relação entre redes sociais e comportamentos violentos é abordada de maneira sutil, mas eficaz. O protagonista não apenas lida com a pressão dos colegas na escola, mas também com a opressão invisível das expectativas e padrões impostos virtualmente. O linchamento moral online pode ser tão brutal quanto a agressão física, pois, no ambiente digital, uma curtida ou um emoticon podem ter um peso imenso.

Um último ponto de destaque para mim é o diálogo final da série entre os pais.
É muito comum em filmes e séries adolescentes que o roteiro culpe os pais pelas atitudes dos filhos – seja por uma criação inadequada, violência familiar ou falta de supervisão. No entanto, esse não é o caso do protagonista de Adolescência. Ele tem uma família amorosa e respeitosa, mas que não percebe o que ele esconde no ambiente online e, principalmente, o que ele não verbaliza. Isso nos leva a uma reflexão delicada: além de prestar atenção no que os filhos dizem e fazem, os pais também precisam estar atentos ao que não é dito.
No geral, o que mais me impressionou na série não foi a história em si, mas como ela foi construída. A trama, embora impactante, é relativamente simples – e é estranho dizer isso, considerando que trata de um assassinato. Porém, vivemos tão imersos em narrativas cada vez mais aprofundadas que sentimos falta de explorar mais os personagens secundários. Por exemplo, a amiga da vítima, que tem uma relação conturbada com a família e um contato direto com os pais da vítima, poderia ter sido mais explorada.
No entanto, entendo que a escolha por não aprofundar certos aspectos da história contribui para o impacto da série. Isso também reflete um padrão de consumo: estamos acostumados a querer mais contexto e desenvolvimento de personagens. E, claro, não posso deixar de elogiar as atuações, que, para sustentar um projeto filmado em plano-sequência, exigiram muito mais do que apenas decorar falas.

A série Adolescência nos faz refletir sobre os desafios de crescer em um mundo digital que, em vez de acolher, muitas vezes hostiliza os jovens. A escolha do plano-sequência não apenas aprimora a narrativa, mas também reforça a ideia de que a vida real não permite ensaios ou edições. Um formato inteligente para um tema delicado e que nunca deixa de ser urgente.
Se ser adolescente está cada vez mais perigoso, é nosso papel, como sociedade, garantir que essa fase seja vivida com mais suporte, empatia e segurança. Um discurso clichê e óbvio, mas que exige atenção aos detalhes e adaptação às mudanças constantes que enfrentamos ao longo dos anos.



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