Estou decepcionada (não fiquei brava nem irritada, apenas... chateada).
Preciso começar dizendo: eu queria ter gostado de Mickey 17. Eu realmente queria. Bong Joon-ho é um gênio. Parasita me surpreendeu — foi mordaz, trouxe um ritmo acelerado, mostrou visuais brilhantes e fez seu comentário social com a precisão de um bisturi, não a de um martelo. Então, quando eu soube que ele estava adaptando o romance Mickey7 com Robert Pattinson interpretando clones no espaço? Logo me animei. Também embarquei na nave, com o cinto de segurança bem afivelado e pronta para decolar.
E então... o filme começou.

Não me importo que algo seja meio estranho. Eu gosto de coisas estranhas. Não tenho problema algum em assistir a um filme em que um cara fica morrendo e voltando à vida e vai perdendo lentamente o senso de si mesmo. Esse não é o problema. O problema é que Mickey 17 parece não saber o que gostaria de ser: uma sátira de ficção científica? Um drama existencial? Uma comédia de amigos desajeitada? Um pastelão com clones? Todas as opções acima? Nenhuma delas se encaixa totalmente.
Uma espécie de caos permeia esse filme de tal maneira que a impressão que fica é que Bong queria somente brincar depois da perfeição intensa de Parasita. E bom, nada mais justo. Deixe o homem brincar. Mas falando como espectadora? Me senti como se estivesse assistindo a um cineasta brilhante jogar um monte de ideias legais em um liquidificador e apertar “pulsar”. Sem ritmo real. Nenhuma recompensa que valha a pena.
O ritmo é muito instável. Algumas cenas se arrastam como se estivessem levando a algo profundo, mas acabam se transformando em piadas meia-boca ou monólogos excessivamente sérios. O tom oscila tanto que tive um choque emocional. Em um minuto, estamos rindo das peripécias de um dos clones; no outro, devemos refletir sobre o significado do sacrifício e do colapso ecológico. Escolha qual caminho quer seguir, cara.

E os grandes temas? Sim, eles estão ali — as divisões de classe, a exploração, a ruína ambiental, o horror de se descobrir descartável —, mas nenhum deles atinge a intensidade que eu esperava. Em vez de desmembrá-los, o filme meio que... somente passa por cima deles. Como se fosse algo assim: “Ei, lembra do capitalismo? É péssimo, não é mesmo?”. E eu penso: “Sim, mas podemos mostrar isso em vez de apenas dizer a cada vinte minutos?”
Robert Pattinson dá tudo de si, como sempre. O homem se empenha totalmente. Seja no papel do Mickey 1 ou do Mickey 17, ele tem aquela energia instável e um pouco desequilibrada que o torna estranhamente perfeito para a ficção científica. Mas nem mesmo ele consegue se manter firme quando o roteiro parece estar sendo reescrito no meio da cena. Sua interpretação parece perdida, como se ele soubesse que o filme poderia ser mais inteligente, mais engraçado ou mais triste, mas não tem permissão para alcançar isso.
Visualmente, é bom. Não é tão legal quanto Expresso do Amanhã, nem tão livre quanto Okja. É somente... bom. Algumas cenas são lindas, com certeza, mas, no geral, não tem o estilo marcante ou a construção de mundo coesa que espero de Bong. É como se ele tivesse construído um palco, chegado à metade dos atos e depois dissesse: “Ah, já está bom o suficiente.”
E eu odeio dizer isso. Detesto ficar decepcionada com diretores que adoro. Mas Mickey 17 parece um rascunho que, de alguma forma, chegou aos cinemas. Falta a elegância de Parasita, a estranheza emocional de Okja e a clareza brutal de Expresso do Amanhã. Em vez disso, temos uma fábula espacial confusa e esporadicamente inteligente que pensa estar sendo profunda quando, na maioria das vezes, está apenas sendo vaga.

Eu queria ter saído do cinema cheia de ideias e sentindo um pavor existencial, mas consegui apenas pensar: “É só isso?”
Não estou dizendo que Bong Joon-ho está perdendo o jeito. De forma alguma. Todo diretor tem pelo menos um filme fora da curva. E esse parece ser o dele. Um tropeço. Um exagero. Um caso de ambição maior que a execução final. Se me dissessem que Mickey 17 era, na verdade, “Mickey 3” e que teríamos de esperar por uma sequência melhor, eu acreditaria.
Então, sim, o Mickey não é o único que se sente como uma cópia descartável. O filme também parece sentir o mesmo. E essa é a verdadeira decepção.
Veredicto: 6/10, e estou sendo generosa porque ainda acredito em Bong.



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