David Lynch, Cidade dos Sonhos e as interrogações no cinema 

Acabo de chegar da sessão de Cidade dos Sonhos no cinema. Cópia restaurada em 4K, a imagem tinindo na tela, os grãos mais vivos do que nunca. É engraçado, nesses anos todos de cinefilia (e tendo David Lynch como uma das principais filmografias por onde se começa a aprofundar o gosto por filmes, assim como fizeram aproximadamente 84,3% dos cinéfilos do mundo) sempre relacionei a imagem de Cidade dos Sonhos a algo televisivo. Me peguei pensando hoje se isso se daria pela própria gênese do projeto: apesar de filmado em 35mm, como a maior parte dos programas televisivos de sua época, Cidade dos Sonhos era originalmente uma série, que Lynch conseguiu dinheiro para filmar o piloto e logo depois viu ser cancelada, precisando daí angariar fundos de outras fontes para que pudesse filmar mais um pouquinho e remontar o material bruto no formato de longa-metragem.

Também pensei que essa impressão de que se tratava duma imagem televisiva talvez pudesse vir das próprias condições em que vi o filme nas visitas anteriores: via pirataria, indo dum esforçado 480p até um decente rip de Blu-ray. Pois bem, nada dessas incursões anteriores me preparou para Cidade dos Sonhos em 4K numa sala de cinema muito bem equipada. Hoje o filme me pareceu mais cinema do que nunca, por isso também mais sonho, mais transe. Apesar da restauração impecável, o filme segue pouco nítido, muito ruidoso, misterioso.

Curiosamente, também me soou mais simples, mais fácil, mais próximo. Desde o falecimento de Lynch, em janeiro desse ano, tenho revisto algumas coisas de sua filmografia, que tanto amo, e pensado sobre como ele encara o cinema, como se apropria de diversos imaginários de cinema e retorce tudo construindo narrativa através de uma assinatura estética muito própria. Lynch é um daqueles cineastas muito famosos que surpreendentemente segue sendo melhor que o próprio fã clube. Será descoberto e redescoberto durante muito tempo ainda, simplesmente porque apoiou sua obra no campo do mistério, do obscuro, e o fez através de um domínio muito particular de imagem e som.

Talvez Cidade dos Sonhos soe maluco numa primeira visita, ainda mais quando se trata de um espectador não muito próximo a um cinema que fuja, narrativa e esteticamente, do que se convencionou no mundo ocidental a uma maneira linear de contar histórias mediante uma câmera. O grande barato da coisa toda, porém, é que Lynch não é, como costumam dizer, um cineasta do cinema experimental. Há experimentalismo em seu cinema, sem dúvidas, mas nunca em prol da descoberta do abstrato, do esticamento dos limites do que pode a matéria cinematográfica, ou de um interesse absoluto pelo sensorial. Também nego veementemente que se trate de um cineasta surrealista, como se costuma dizer. Há um diálogo com o surrealismo, claro, mas Lynch não é um cineasta do inconsciente: ele é um cineasta da intuição.

O jogo estabelecido pelo cinema de Lynch é mais simples do que parece: há os símbolos, e eles estão ali quase como uma parábola bíblica, um jeito de codificar uma mensagem colocada em garrafa e lançada ao mar. Em Lynch, cada espectador é um detetive que, para decodificar tais símbolos, deve contar menos com a racionalização de tais signos e mais com a ferramenta da intuição. Lynch nos convida a entender através do sentir. Daí que seu cinema é construído a partir de abstrações e simbolismos, mas nunca é algo “solto”, nunca é meramente “maluco”, quase como se aquelas imagens e sons estivessem ali por mera arbitrariedade de uma mente que psicografa coisas sem sentido. Não. Lynch é um cineasta de mise-en-scène. Isso significa que tudo em cena foi pensado, independente dele mesmo saber o significado ou não. Quando digo que Lynch nos vê como detetives, é porque seus filmes, esses enigmas sedentos por nos devorar, não querem ser decifrados. Não se interpreta Lynch. Se assiste diversas vezes até entender pelos poros. Passa pelo nosso inconsciente e vai até o consciente. Entra por osmose. Ele mistura tanto as peças do tabuleiro, que talvez a melhor maneira de apreciar seu cinema seja abrindo mão de compreendê-lo e deixando-se guiar pelas imagens e sons.

Nesse sentido, o cinema de Lynch é absolutamente educativo, porque de alguma forma nos leva até uma ideia primitiva de cinema e nos faz reavaliar a maneira como nos relacionamos com os filmes, o que esperamos deles. Numa segunda assistida, Cidade dos Sonhos começa a fazer mais sentido. Numa terceira, talvez você já entenda tudo (mesmo que o “tudo” seja apenas uma parcela de um todo, porque Lynch crê no mistério).

E quando digo que ele nos retoma a uma ideia primitiva de cinema, é porque esses símbolos que Lynch constrói são tão abstratos que se tornam imensamente diretos. Em Lynch, o cachimbo é cachimbo, só que talvez você veja o cachimbo fumando um ser humano, e não o contrário. Vamos pegar como exemplo o tanto de códigos que o cineasta lança mão na primeira meia hora de Cidade dos Sonhos para nos indicar que aquela história não se passa no “mundo real” mas justamente nessa realidade inventada, uma fantasia duma mente que se põe a fugir do mundo, como em Estrada Perdida. Os filmes de Lynch se passam radicalmente no mundo do Cinema.

Ele vai nos informar que se trata de um “sonho” repetidas vezes: tem o plano de câmera subjetiva que coloca alguém deitando-se num travesseiro e “apagando”. Depois tem um personagem que, num restaurante, conta um sonho estranho que tem nesse restaurante enquanto tenta reencenar esse sonho para descobrir se está acordado ou dormindo (adivinhem o resultado). Tem até um momento estranhíssimo onde uma personagem ao sair do aeroporto percebe que suas malas sumiram 2 segundos antes de notar que elas já foram carregadas por um taxista sorridente que a atende sem mesmo que ela diga que quer um táxi. Todos esses exemplos que dei são entrecortados por planos de uma das personagens deitada numa cama, dormindo. Tudo é muito direto, didático, reincidente, quase que ilustrativo. Só que não vem anunciado por meio de diálogos expositivos. Surge via estranheza. Em Lynch a estranheza é só uma subversão do que consideramos normalidade.

Sempre tive certa resistência a escrever sobre Lynch, porque acho que qualquer tentativa de escrita é uma racionalização desnecessária. Agora mesmo, enquanto escrevo, sinto que vou discordar de tudo isso aqui amanhã mesmo. Sinto-me tentando aprisionar algo que deveria ser livre. Não quero te dar as ferramentas para entendê-lo. Não quero te instigar a uma teorização de algo que é tão empírico. Não quero ser mais um a dar o tiro que mata o cerne da experiência. Dito isso, se há algo que pretendo fazer com que você, leitor, saia daqui sabendo, é que Lynch é o tipo de cineasta que pede que você olhe mais uma vez para seus filmes. Não recorra a vídeos de final explicado, não leia textos de teoria de fã tentando entender o que é a caixa azul. Aprenda a curtir o não saber.

Na terceira ou quarta assistida, com seu inconsciente organizando cada um daqueles símbolos embaralhados, é capaz que toda a suposta maluquice de Cidade dos Sonhos perca força. Porque não há caos ali. Existe mise-en-scène, uma orquestração de elementos em cena mediante símbolos. Isso me faz pensar que Lynch é um cineasta perfeito para os tempos em que vivemos. Em um momento de excessiva racionalização, onde tudo precisa ser mastigado, onde se o receptor não apreende a mensagem a culpa é do emissor, Lynch é justamente esse convite à não interpretação: em Lynch a experiência se basta. Mas penso que vai além: em um momento onde o cinema é consumido tal qual um produto, onde notas são dadas quase como se fosse um review destacando que a entrega foi rápida e o produto chegou intacto e igual ao anúncio, um filme como Cidade dos Sonhos é um convite a uma segunda assistida. Você quer voltar para aquilo ali em breve. Ou melhor, você precisa voltar. Isso se dá em muito pelo próprio elemento do mistério: tudo que termina com interrogação permanece mais tempo conosco. Em Lynch não há ponto final, não há conclusão que basta. Há o assombro das imagens, o desconforto dos ruídos sonoros, e há a desorientação. O que foi que eu acabei de ver? O que está acontecendo? O que vem a seguir?

Esse convite a retornar, a olhar mais uma vez, a prestar mais atenção e a buscar outras maneiras de se relacionar com um filme que não seja pela historinha edificante ou pelos diálogos elucidativos, talvez seja a maneira mais radical de fazer com o que o cinema permaneça no público. Aos poucos, com Lynch abandonamos o fetiche pelo cinema de decodificação que Christopher Nolan fomentou no cinema comercial estadunidense (logo, na maneira como todo o grande público se relaciona com filmes), bem como também nos distanciamentos do fetiche pelo “diferentão”, essa pira de jovens cinéfilos que parecem se apegar mais à casca que à forma de um filme. Cidade dos Sonhos, penso eu, é um filme que recorre ao cinema como cura para uma história de amor trágica. De alguma forma, é um convite para reelaborarmos essa dor de uma outra maneira, como geralmente só a arte faz. E o melhor é que faz isso através da experiência estética, daquilo que nos atravessa. Nos coloca em uma situação passiva. Você sofre o filme de David Lynch, e essa talvez seja a melhor maneira de se relacionar com o cinema.

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