"Ritas": Os "filmes-shows" 

Oswaldo Santana, diretor do longa, ao apresentá-lo ao público no CineSesc completamente lotado, disse: “Esse filme é para vocês, cantem, dancem e se divirtam!”. Antes de começar a sessão, eu tinha certo receio com o filme. Rita era — e ainda é — uma figura única, com seu jeito singular para o nosso país. Outro grande fator, é claro, são suas músicas. Daí meu receio: um filme que não contemplasse Rita Lee como essa mulher exponencial e se tornasse apenas um "filme-show". Foi aí que a frase do diretor já me deu uma dica do que eu encontraria.

Explicando o que defino como um "filme-show": Bohemian Rhapsody (2018), de Bryan Singer, e Bob Marley: One Love (2024), de Reinaldo Marcus Green, são bons exemplos. A estrutura desses filmes segue quase sempre a mesma escada de três etapas: Etapa 1, começa a apresentar algum momento específico da vida do artista, seja ele um romance, uma decadência ou uma ascensão; Etapa 2, é citado algo que claramente antecipa uma música com o mesmo tema; Etapa 3, a música toca! E toda a sessão vibra, canta e dança. No final da música, o ciclo volta para a primeira etapa. Seguindo assim, um ciclo vicioso.

Nos últimos dias, as cantorias em salas de espetáculos, como cinemas e teatros, entraram em discussão após as primeiras sessões da nova temporada do musical Wicked estrearem no Teatro Renault, em São Paulo. Essas sessões foram tomadas por fãs da obra, que transformaram a magia do universo de Oz em um verdadeiro pandemônio por conta das cantorias. Myra Ruiz, que interpreta Elphaba, disse em uma live no Instagram que mal consegue ouvir sua própria voz e a dos outros colegas de elenco, além de se incomodar com os celulares a gravando. A organização da peça passou a colocar um aviso antes de cada apresentação, pedindo que as pessoas se manifestem, se assim desejarem, com palmas e vivas ao final de cada número musical que desejarem aplaudir.

Momentos como esses estão se tornando cada vez mais comuns, tanto no Brasil quanto em outros países. Existe esse sentimento de que, ao cantar, ao gravar a obra, o senso de pertencimento se torna maior — como se você se tornasse mais fã ao tomar essas atitudes. Algo que Walter Benjamin já discutia há muito tempo: a obra de arte se torna técnica, e a indústria da cultura, ao querer trazer essa unicidade para o momento vivido por cada um, torna a arte banal.

Voltando a Ritas, infelizmente ele segue esse mesmo caminho dessas obras que comentei. O filme traz as melhores músicas da cantora, mas não o estofo da vida de Rita Lee. Paulistana fervorosa, Rita Lee Jones tem uma vida repleta de histórias e acontecimentos que marcaram uma nação. Foi uma das primeiras mulheres a fazer rock no Brasil, além de ser abertamente contra a ditadura, enfrentando-a com coragem ao lado de seus parceiros do Tropicalismo. Mas não há espaço para contemplação em seu documentário.

Desde sua infância cantando em uma igreja no saudoso bairro da Vila Mariana até as suas músicas censuradas no período do golpe militar, o filme apenas pincela momentos de sua trajetória. Não há um fio narrativo coeso. É claro que é difícil colocar 75 anos em cerca de 80 minutos, mas uma abordagem mais profunda em momentos essenciais merecia atenção especial, ainda mais sabendo que priorizaram, em grande parte, o uso de suas canções.

Desde pequeno, sempre fui apaixonado por ela. Lembro-me de ouvir a música "Flagra", na qual ela conta sobre uma noite de cinema em que o filme pifou. Acredito que tenha sido um dos meus primeiros contatos com essa magia do cinema. Dito isso, apesar de tudo que comentei, o filme não chega a ser de todo mal. É muito bom ter mais um contato com Rita, vê-la gravando vídeos de si mesma e falando de suas "baboseiras conscientes". Ver ela recordando alguns momentos e falando com o diretor sobre sua trajetória é especial. É uma pena não haver mais momentos no longa com ela conversando diretamente com o público, relembrando sua vida.

No final, Ritas é isso: um compilado da playlist "This is Rita Lee" do Spotify, onde a cada momento se constrói uma narrativa para que logo em seguida toque a próxima música — com uma sala inteira fazendo coro com a cantora. E o pior de tudo: com o aval do seu realizador.

Obs: Caso vá assistir no cinema, prepare-se para a cantoria e para os diversos celulares gravando a tela durante a sessão.

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