
“A certeza é a grande inimiga da unidade. A certeza é a inimiga mortal da tolerância.”
É preciso ter muito cuidado ao escolher as palavras que se deseja colocar em um roteiro. Não sei ao certo para qual deus o diretor dessa obra em particular ora (se é que ora para algum), mas, segundos após terminá-la, entendi que isso não é o que importa de verdade. As sensações que se pode ter a respeito de um filme sem tê-lo visto são muito estranhas, mas mais estranho ainda é como nos submetemos a um processo de subversão do que acabamos de ver. Meu pensamento pode parecer um pouco complicado e distorcido, mas é mais simples do que parece.
A religião é um tema que me assombra desde que me conheço por gente. Nunca me senti tentado a me ajoelhar em frente a uma cruz, a aprender orações que não vou utilizar na vida real, muito menos a acreditar que existe uma força superior que me faz querer perder peso no verão. Nesse aspecto, sou o que algumas pessoas podem chamar de pessimista. Posso dizer, com 99% de certeza, que também me considero um pseudopessimista que tende a ver qualquer cerimônia, ato ou ritual religioso como um espaço que faz com que eu me sinta vulnerável, até mesmo enojado. Respeito a crença de uma pessoa, mas qualquer sensação de “coletividade” em relação a ela me faz estremecer.

Meu pai quis me batizar quando tinha quinze anos, porque quando nasci não me fizeram passar por esse momento (graças a Deus, e digo isso ironicamente). Naquela época de clássica rebeldia juvenil, eu não aceitei, mas não por causa da posição negacionista normal da idade, e, sim, porque realmente NÃO ACREDITAVA EM DEUS. Dezessete anos depois, continuo não acreditando, e muito menos na Igreja. Ela me parece um espaço falso no qual os seres humanos tentam esconder suas misérias com uma sobrecarga ridícula de positividade, onde todos os pecadores se vestem de santos por uma hora para se convencerem de que o Senhor vai perdoar qualquer erro que cometerem.
E se falamos de rituais e cerimônias, daquelas congregações que podem mudar nossas vidas para sempre, prefiro o cinema: estar em frente a uma tela e ser REALMENTE transformado por uma experiência (desculpe, sei que disse que respeito crenças diferentes, mas meu fervor às vezes leva a melhor). É lá que estão meus deuses e é a eles que oro. Conclave é o novo filme de Edward Berger, o diretor mais conhecido por dar vida à terceira adaptação cinematográfica do romance Nada de Novo no Front, um título que surpreendentemente ganhou quatro Oscars em 2022, quando todos esperavam outros resultados. A moralidade e o senso de guerra não são estranhos ao cineasta que, em sua primeira abordagem das formas de filmagem em solo estadunidense (embora não exatamente, já que o filme é gravado na Itália, mas acho que me fiz entender), traça um paralelo com sua poderosa obra anterior.

Neste thriller religioso de proporções e características mínimas (mas com decisões máximas), a guerra não é decidida pelo número de baixas nas trincheiras; é uma guerra de valores e princípios, tem vários lados e ocorre em um contexto misterioso: o Papa morreu por razões incontroláveis, mas deixou alguns mistérios não resolvidos que o cardeal encarregado do conclave*, Thomas Lawrence (interpretado pelo lendário Ralph Fiennes), deve desvendar. Mas será que ele deve, quer ou tem que desvendar? O filme mostra como grande parte da comunidade se torna invisível em questões relacionadas à responsabilidade. Ninguém quer assumir a liderança, todos preferem fazer barulho desnecessário, sem dialogar nem chegar a um consenso saudável. O que isso fala sobre a Igreja, os valores que busca representar e expor em cada canto do nosso, aliás, abençoado planeta?
O desenvolvimento é bastante previsível. Há vários candidatos para substituir o papa: um bastante ganancioso, outro com um passado obscuro, um silencioso que não se considera digno e um que defende com unhas e dentes os valores da “velha igreja”, onde Roma, tomando Copérnico como paralelo imediato, sempre será o centro do universo cristão e deve ser representada por um italiano. A política se mistura com a religião, forma-se uma batalha de ideais em que os cardeais medem quem tem o bastão mais longo e, nesse momento, meu nível de tolerância estava a duas palavras de explodir. Embora não possa considerar esse drama uma obra-prima, posso afirmar que conseguiu um feito, talvez não de maneira intencional: me fez pensar que a Igreja morreu, e morreu há algum tempo.

Como é possível professar em nome de Deus, dos Santos Evangelhos e de toda figura de “bem” quando nos cantos das estruturas onde vivem seus representantes é possível testemunhar quase todos os pecados que os seres humanos podem cometer, como a inveja, a ganância, o orgulho e a avareza? O que aconteceu com a comunidade cristã, aquela que prega em nome do bem, do puro e do imaculado? Nunca terei a resposta, nem quero ter — prefiro que eles assumam a responsabilidade de suas ações.
*Conclave é a reunião do Colégio de Cardeais da Igreja Católica Apostólica Romana para eleger um novo Sumo Pontífice (papa), que é o bispo de Roma e que também governa o Estado da Cidade do Vaticano.
Publicado em 19 DE DEZEMBRO DE 2024, 17hs18 | UTC-GMT -3}
Se você gostou deste artigo, lembre-se de CURTIR, colocar em seus FAVORITOS, COMENTAR se já viu ou não e ME SIGA para mais conteúdos de filmes e séries 📽️



Compartilhe sua opinião!
Seja a primeira pessoa a iniciar uma conversa.