O Ramadã começou no dia 11 de março (as datas podem variar dependendo do avistamento da lua crescente em diferentes regiões), marcando o início de um período de um mês durante o qual os muçulmanos ao redor do mundo jejuam, fazem orações, reflexões e se reúnem.
Para os muçulmanos adultos devotos que não tenham doenças agudas ou crônicas, o jejum é obrigatório do amanhecer ao pôr do sol durante o Ramadã. Já para idosos, lactantes, diabéticos, grávidas, pessoas menstruadas ou que estejam viajando o jejum não é obrigatório. Os muçulmanos podem assistir filmes durante o Ramadã? Depende da interpretação pessoal e da adesão aos princípios islâmicos. Se a resposta for sim, que tipos de filmes são halal (permitidos) e quais são haram (proibidos)?

As respostas variam muito dependendo de quão devoto o muçulmano é em sua adesão às crenças islâmicas. Os secularistas, que nascem em famílias muçulmanas, podem se comportar como fariam em qualquer outro mês, e assistir o que quiserem. Indivíduos religiosos podem optar por assistir a programas de TV ou documentários históricos relacionados ao profeta e suas boas ações. Os fundamentalistas podem recusar qualquer forma de entretenimento durante o Ramadã, ou após o jejum diário, já que consideram isso uma distração.
Em geral, os muçulmanos são encorajados a evitar filmes com conteúdo explícito, nudez, violência excessiva ou valores contrários aos ensinamentos islâmicos. Filmes halal promovem valores morais e espiritualidade e são educacionais, enquanto filmes haram têm conteúdo explícito ou promovem a imoralidade.
Para ser honesto, não sou muçulmano, mas tenho curiosidade sobre a cultura, a arquitetura, a música e os filmes islâmicos. Quando penso na minha própria pergunta sobre os filmes halal, aqueles clássicos com temática histórica sobre o mundo árabe ou histórias adaptadas de “As Mil e Uma Noites” me vem à mente.
A referência mais direta seria Aladdin, uma adaptação live-action de 2019 do filme clássico da Disney de mesmo nome. Ele conta a história de um jovem pobre que encontra uma lâmpada mágica e se torna um príncipe para conquistar o coração de uma princesa. É difícil acreditar que o diretor dessa versão de Aladdin é o cineasta britânico Guy Ritchie, que ganhou fama fazendo filmes policiais. Outro filme que vale a pena considerar durante o Ramadã é Lawrence da Arábia, de outro famoso diretor britânico, David Lean. Ao contrário de Ritchie, Lean ficou famoso através de filmes históricos de grande escala com grandes temas. Lawrence da Arábia oferece ao público um vislumbre do mundo árabe moderno por meio da história pessoal e da perspectiva do protagonista Lawrence, um comandante britânico durante a Primeira Guerra Mundial.

É claro, o público curioso sobre o mundo árabe e a cultura islâmica não pode confiar apenas em perspectivas externas ou em filmes de antigas potências coloniais. Porém, devido ao tabu em torno da personificação do Profeta Maomé e da relativa falta de uma indústria cinematográfica robusta em muitos países modernos de maioria muçulmana, muitas vezes encontramos documentários ou animações sobre o Profeta criados no mundo ocidental. Os exemplos incluem a biografia animada Muhammad: The Last Prophet e o documentário da PBS Muhammad: Legacy of a Prophet. Esses filmes, embora produzidos no ocidente, pretendem fornecer informações sobre a vida e o legado do Profeta Maomé de um ponto de vista respeitoso e educacional, oferecendo aos espectadores uma janela para a história e a cultura islâmica.

O melhor exemplo da criação da imagem do Profeta e da transmissão das crenças islâmicas através de uma narrativa tradicional é o filme de 1976 Maomé – O Mensageiro de Alá. Essa produção internacional foi uma colaboração entre as nações do Líbano, Líbia, Kuwait, Marrocos e Reino Unido. O filme começa com cenas retratando Hamza entregando um oráculo do Império Bizantino para o Egito e depois à Pérsia. Em cerca de cinco minutos de filme, uma mensagem crucial é exibida em um intertítulo sobre um fundo preto na tela, afirmando: “os estudiosos e historiadores do Islã, a Universidade de Al-Azhar no Cairo, o Congresso Islâmico Supremo do Shiat (xiita) no Líbano, aprovaram a precisão e a fidelidade deste filme”. Porém, o endosso dessas instituições autorizadas é considerado insuficiente. No intertítulo subsequente, a produtora afirma ainda: “os criadores deste filme honram a tradição islâmica, que afirma que a personificação do Profeta ofende a espiritualidade de sua mensagem. Portanto, a pessoa de Maomé não será mostrada”.

Apesar das garantias fornecidas e do apoio de instituições islâmicas respeitadas, a Arábia Saudita recusou-se a apoiar o diretor síria Moustapha Akkad e sua produção cinematográfica. Os anciãos Wahhabi ultraconservadores dentro da Arábia Saudita opunham-se fundamentalmente à arte do cinema, considerando inaceitável qualquer tentativa de adaptar as experiências do Profeta. Por fim, foi o ditador líbio Muammar Gaddafi que ofereceu apoio financeiro total, permitindo que esse projeto ambicioso se concretizasse. Maomé – O Mensageiro de Alá tornou-se uma obra-prima na história do cinema e um filme obrigatório entre os estudantes das principais universidades árabes do mundo.
De fato, durante o Ramadã, os muçulmanos são encorajados a dedicar mais tempo às orações e aos atos e caridade e a se esforçar a melhorar sua autodisciplina. Eles são motivados por uma frase do hadith (os ditos do Profeta): “Quando o Ramadã chega, os portões do Paraíso se abrem e os portões do Inferno se fecham, e os demônios são acorrentados”. Portanto, estritamente falando, assistir qualquer filme durante o Ramadã pode entrar em conflito com o tempo gasto em adoração e autointrospecção. Até mesmo os filmes mais populares podem levar os crentes a desejos mundanos como a luxúria, fazendo com que eles percam suas orações Isha ou Tarawih à noite.
Certamente, para os muçulmanos que aceitam isso, os filmes voltados para a família, especialmente aqueles com animais fofos e que transmitem lições valiosas sobre coragem, amor pela família e dedicação às próprias paixões, são geralmente adequados para se assistir durante o Ramadã. Filmes como O Rei Leão, Pets: A Vida Secreta dos Bichos e Zootopia se encaixam nessa categoria. Eles não são apenas divertidos, mas também oferecem mensagens positivas que se alinham com o espírito do Ramadã, promovendo virtudes como a bondade, a coragem e a harmonia comunitária.

Alguns acreditam que a TV ou o cinema é como uma taça de vinho, alegando que “se alguém beber leite nela, é halal; se colocar álcool dentro, é haram”. A ferramenta ou a mídia em si não é haram, tudo depende de como você a utiliza.
Na Indonésia, o país com a maior população muçulmana no mundo, os cinemas em sua capital, Jakarta, fornecem listas de filmes para o Ramadã, que incluem Maomé, claro, assim como Filhos do Paraíso, O Sonho de Wadjda e Onde Fica a Casa do Meu Amigo? Todos são filmes infantis produzidos em países do Oriente Médio.
Uma professora de cinema, Sana Haq, da Universidade de Miami, vai além com sua lista de filmes do Ramadã. Nela, descobrimos que a maioria dos filmes envolve a luta para defender diferentes causas – independência nacional (A Batalha de Argel), igualdade étnica (Malcolm X) ou até mesmo os direitos dos transgêneros no conservador Paquistão (Joyland).

E quanto a Arábia Saudita? Muitas vezes visto como o país mais conservador do mundo pelo público, é o país que se recusou a adaptar a história do Profeta Maomé em filmes como Maomé. Sana Haq escolheu um filme de comédia saudita para o Ramadã, Barakah com Barakah, que estreou no Berlinale em 2016. É uma comédia romântica que foca em um casal e sua vida conturbada porque eles não têm filhos biológicos. O filme também se aprofunda em outros elementos como uma companhia teatral ocupado ensaiando Hamlet, um vlog amplamente visto e um sutiã push-up rosa. À primeira vista, esses elementos podem não parecer adequados para o Ramadã. Porém, nossas noções preconcebidas são desafiadas quando Barakah com Barakah é filmado na Arábia Saudita, um país islâmico moderno e afluente.



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