A Vida é Bela: o humor é uma ferramenta da tragédia Spoilers

Eu costumava assistir A Vida é Bela e vê-lo como um filme de comédia. Só quando fiquei mais velho é que percebi que o foco dele, como de outras grandes comédias, é, na verdade, uma tragédia. O contraste entre a primeira parte alegre e a segunda profundamente trágica faz com que pareça que se tratam de dois filmes diferentes.

Em uma cena, Guido persegue Dora; ela menciona que a chave certa pode abrir seu coração. Guido, então, grita para o céu: “Mary, a chave!” e milagrosamente a chave cai.

Ele grita novamente para o céu: “Mary, manda alguém avisar quando devemos comer o bolo”. O médico se aproxima e diz: “7 segundos”. Dora imita Guido e pede a Mary que mande alguém lhe dar um chapéu, e outro milagre acontece.

Há também a cena do teatro em que Guido fica olhando para Dora. Ele explica: “Só consigo ouvir com o ouvido esquerdo”. Essas cenas mostram o quão inteligente Guido é.

Ele consegue conquistar o coração de Dora não só pela inteligência, mas também porque a vê como sua princesa. E suas palavras são respaldadas por ações: ele escreve “bom dia, princesa” no bolo, leva Dora a cavalo, estende um tapete, fala com ela pelos alto-falantes do campo de concentração e canta canções – todos são gestos incrivelmente românticos. Até que Guido vai em busca de Dora, é descoberto e acaba sendo executado por um pelotão de fuzilamento; o mais cruel é que a guerra termina no dia seguinte.

Muitos espectadores se perguntarão: se Guido não tivesse ido procurar Dora, eles conseguiriam se encontrar no dia seguinte? Seu sacrifício foi sem sentido? A maioria das pessoas prioriza sua própria segurança e não arriscaria a execução como ele fez para encontrar a esposa; eles não chegariam ao ponto de criar uma história reconfortante para os filhos nem se permitiriam voluntariamente ser levados para um campo de concentração como Dora, mesmo ela não sendo judia.

É exatamente porque a maioria das pessoas comuns não faria tais coisas que as ações de Guido e Dora são incrivelmente emocionantes. Dora se dispôs a ficar com a família, entrando no campo de concentração, e Guido se dispôs a arriscar a vida para dizer “bom dia, princesa” e cantar canções para ela nos alto-falantes, o que ilustra ainda mais seu amor. Mesmo diante do perigo, Guido nunca desistiu do amor pela esposa e pelo filho; esse amor não apenas deu esperança à família, mas também se tornou sua vulnerabilidade, levando ao trágico destino da execução.

Se Guido estivesse preocupado apenas consigo mesmo, provavelmente teria sobrevivido até o fim; mas ele não queria viver sem sua família. Ele não sente remorso por suas escolhas e, se tivesse a chance de fazer tudo de novo, tomaria as mesmas decisões – ele valoriza a vida de sua esposa e filho mais do que a sua própria.

Eu me perguntava por que um filme sobre a guerra tinha tantos elementos cômicos; por que passa tanto tempo contando a história de amor de Guido e Dora?

A razão por trás dessa abordagem única é a quantidade de filmes que retratam apenas a guerra. O diretor Roberto Benigni – que também interpreta Guido – optou por uma técnica de filmagem mais inovadora, adotada futuramente em Jojo Rabbit: ele não retrata a brutalidade do campo de concentração através de cenas sangrentas e aterrorizantes, mas compara a vida lá com a vida alegre da família de Guido na primeira metade do filme; quanto mais feliz tivesse sido sua vida, mais intenso era o sofrimento no campo de concentração. O tom bem-humorado e envolvente do filme serviu para realçar a tristeza do final. Se não houvesse paz, como você saberia o quão cruel é a guerra?

Como disse no início, são como dois filmes diferentes. Este nítido contraste reflete a dura realidade da guerra e da discriminação racial, ao mesmo tempo que mostra o imenso poder do amor parental. Guido manda Joshua se esconder no armário, mas ele diz que Schultz está lá dentro – na verdade, Guido nem conhece o menino que estava escondido ali, ele inventou o nome Schultz na hora e até tinha esquecido, mas Joshua lembrava, o que mostra a inteligência do filho e o sucesso da “mentira” de Guido.

A inteligência de Joshua acaba superando a do pai. Uma criança tão inteligente não seria enganada facilmente, por isso Guido precisa se esforçar muito para convencê-lo de que tudo era apenas uma brincadeira. Cada vez que é levado por alguém, ele anda de maneira engraçada e exagerada, fazendo Joshua pensar que está apenas brincando. Enquanto todos estavam exaustos do trabalho e iam direto para a cama, Guido fingia continuar a brincadeira, demonstrando felicidade para sustentar a ilusão do filho.

Joshua não acredita e quer voltar para casa – Guido não o impede de ir embora, mas o convence a ficar. A chave caída podia desbloquear seu coração, mas não quebrar as correntes da escravidão; andar a cavalo podia simbolizar a liberdade do casamento, mas não das algemas do fascismo.

Diante da dura realidade, ele responde com carinho; apesar da brutalidade da guerra, ele enche o filho com amor paternal. Uma mentira cuidadosamente elaborada, uma brincadeira compartilhada entre pai e filho, presenteia a criança com uma infância alegre – mesmo em meio a circunstâncias infernais, ele transforma o local no paraíso. Sua vida passa a ser o custo de uma linda vida para sua família.

Mas apesar de o amor paterno ser um dos elementos mais importantes do filme, não é o tema principal – se fosse, não teria alcançado um status tão alto na história do cinema. O verdadeiro tema do filme é, na verdade, os problemas da guerra e da discriminação.

A tentativa malsucedida de Guido de abrir uma livraria se deve à política de discriminação racial de Mussolini, que dificultava a vida dos judeus; lojas que proíbem sua entrada podem ser vistas em todas as ruas; mas, claro, a parte mais brutal é o massacre nazista, que não poupou nem mesmo mulheres e crianças.

Você se lembra da garota que estava sentada ao lado de Guido e Joshua quando eles foram levados?

Quando seu gato reaparece, a dona não está mais lá. O diretor não mostra a menina sendo morta, mas insinua seu destino através de detalhes.

E há outros detalhes horríveis:

No campo de concentração, um médico conta a Guido que seu amigo veterinário lhe fez uma charada: “Gordo e feio, covarde e amarelo. Se você me perguntar que tipo de criatura eu sou, eu respondo: quack quack quack”. O médico disse que não sabia se a resposta era pato ou ornitorrinco, e menciona que o som do ornitorrinco não era "quack quack quack". Há uma mensagem escondida em suas palavras: a diferença no som de um pato e de um ornitorrinco expressa a diferença de linguagem entre italianos e alemães.

No restaurante, Joshua acidentalmente disse “obrigado” em italiano, levantando suspeitas dos alemães. Sem saber se o menino conseguiria ficar em silêncio por muito tempo, o médico percebe que ajudá-los a escapar é muito mais difícil do que imaginava – ele havia decidido ajudar, mas acaba desistindo. Guido é uma pessoa muito inteligente e entendeu o que o médico queria transmitir através do enigma, por isso saiu triste; na verdade, o médico também tem suas dificuldades: se não ajudar a família de Guido a escapar, também não terá um final feliz.

Na verdade, nenhum enigma do filme é escolhido aleatoriamente, estão todos relacionados ao enredo. A primeira charada que o médico faz a Guido é: "Quanto mais você vê, menos você vê. O que é?", e ele responde: “Escuridão”. Se o mundo estiver muito escuro, as pessoas se perderão e não conseguirão ver o caminho. Guido se torna uma vela, lançando uma luz fraca, mas orientadora, na escuridão, conduzindo a esposa e o filho adiante enquanto se sacrifica no processo.

Mais tarde, Guido pergunta ao médico sobre como cortar uma fatia do bolo da Branca de Neve, o que prepara o terreno para a "estratégia" de Guido para Dora. Antes de partir para a Alemanha, o médico pergunta a ele: "Quando sou mencionado, desapareço. Quem sou eu?", e Guido responde: “Silêncio”. Esse enigma se torna a chave para o médico reconhecer Guido durante o exame no campo de concentração.

É um enigma muito inteligente porque a pergunta "quando sou mencionado, desapareço" corresponde à situação no campo de concentração – se for descoberto, será executado.

A resposta “silêncio” também é uma instrução de Guido para Joshua, pedindo que se escondesse no armário e permanecesse em silêncio até que fosse seguro sair.

Além do gato e do médico mencionados, há outra cena impactante: do lado de fora da câmara de gás, o tio de Guido pergunta à oficial alemã que tropeçou se ela tinha se machucado. Pode parecer um detalhe insignificante, mas tem um significado maior.

Ela acabara de sair da câmara de gás, algo que já havia feito muitas vezes, e sabia o destino das pessoas que estavam lá dentro – por isso que tinha tropeçado. Mas os judeus são mantidos no escuro e não sabem que vão para lá, eles acham que é apenas um banho.

O tio de Guido, que já foi garçom, instintivamente expressa preocupação com a policial. Isso também se reflete em Guido: quando Joshua diz que não quer tomar banho, ele ordena que vá, acreditando que realmente significava tomar banho. As pessoas que entraram na câmara de gás morreram, e aqueles como Joshua, que não entraram, não sabiam o que havia lá dentro, então poucas pessoas sabem o segredo.

Os oficiais alemães ficavam tão assustados com as cenas horríveis nas câmaras de gás que não conseguiam andar com firmeza; enquanto os judeus não tinham ideia do que os esperava, criando um forte contraste. Eles eram mantidos no escuro, alheios ao fato de que estavam prestes a morrer. Como espectadores, temos a dolorosa consciência de que o chuveiro é, na realidade, uma câmara de gás, e nos entristece profundamente ver Guido e o tio, juntamente com outros, desconhecerem a verdade. O aspecto doloroso é saber seu destino, mas sendo apenas observadores, somos incapazes de mudar o curso trágico dos acontecimentos e fazer qualquer coisa a respeito.

O diretor não utilizou cenas gráficas para retratar os horrores da guerra; não há grandes planos das câmaras de gás, nem imagens detalhadas do sofrimento das vítimas – apenas um breve vislumbre dos corpos no chão – e mesmo a execução de Guido é transmitida através de sons, não de imagens. Essa abordagem não diminui o poder do filme, enfatizando o respeito do diretor pela vida.

Em A Vida é Bela, a dor sofrida pelas vítimas é retratada através do enredo, de detalhes e metáforas. Essa abordagem permite que os espectadores sintam empatia em vez de se assustarem com cenas explícitas e chocantes. O diretor escolheu proteger nossas almas, assim como Guido protegeu a de Joshua; o verdadeiro propósito não era apenas celebrar o amor paterno, mas, mais importante ainda, fazer as pessoas compreenderem a crueldade da guerra e os horrores do genocídio através do sacrifício de Guido e das experiências de sua família.

Uma bela mentira contada por Guido convenceu o filho de que estavam no céu enquanto aguentavam a dura realidade do inferno – é uma narrativa profundamente comovente. Depois de assistir ao filme, evocamos a esperança de um mundo de paz, livre de guerra e discriminação; num mundo assim, os pais não precisariam recorrer a mentiras, pois seus filhos já viveriam numa existência celestial, livres das tragédias do conflito e do preconceito.

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