Hollywood adora uma história estilo "dos trapos à riqueza".
Mal sabemos – e talvez eles não estejam totalmente cientes disso também – que seu maior sucesso se encaixa nesse molde narrativo convencional.
A Walt Disney Company, que foi fundada em 16 de outubro de 1923 e está celebrando agora sua glória centenária, foi por muito tempo um azarão nos negócios. Um azarão fofo, mas nunca um gigante e um conglomerado midiático que chegaria ao 53° lugar na lista de empresas americanas da Fortune 500 de 2022 por seu faturamento.
Pode ser difícil de acreditar, mas Disney não fazia parte dos “Oito Grandes”, os oito maiores estúdios que formavam os pilares de Hollywood. Durante a Era de Ouro de Hollywood, a Disney Productions, como era conhecida na época, era uma companhia independente e não subiu a escada dos “Principais” até a década de 1980. Agora, é claro, ela pode reivindicar sua linhagem de realeza ao panteão através da 20th Century Fox, que é um membro autêntico da liga original dos “Oito Grandes” e que a Disney adquiriu em 2019.
Se estudarmos a história inicial da Disney, concluiremos que ela sempre definiu claramente seus parâmetros. Desde o início, ela fez questão de criar um entretenimento familiar, especialmente animações. No entanto, um posicionamento do mercado nitidamente delineado é contra a expansão. Todos sabiam no que a Disney se destacava, mas poucos, se é que existem, poderiam imaginar seu futuro além do horizonte.

Um final feliz para cada episódio
Toda companhia de sucesso tem seus altos e baixos. Normalmente, mais altos do que baixos para compensar os solavancos e sobreviver e prosperar até hoje.
A história da Disney tem sua cota de acertos e fracassos, mas eles parecem se espalhar como uma série ou uma narrativa de formato longo, na linguagem de hoje. As luzes nos picos são tão brilhantes que ajudam a superar os pontos baixos. Por exemplo, se dramatizarem a história da Disney no futuro, a primeira parte terminará provavelmente no lançamento de Branca de Neve e Os Sete Anões (1937).
Seria esclarecedor observar Disney desde suas humildes origens. Eu digo a pessoa, o criador da empresa de mesmo nome. É preciso conhecer essa pessoa para entender de verdade o século de triunfos da empresa. Da mesma forma, é preciso aderir, de certa forma, à sua filosofia para dedicar uma carreira à gestão dessa empresa.
Claro, Walt Disney (1901-1966) não era um homem perfeito. Mas quanto mais leio sobre ele, mais respeito tenho. Ele adotou uma estratégia de bom-senso. Assumiu riscos ousados, mas não era do tipo chamado “visionário”, que apostaria tudo.
Quando ele decidiu fazer o primeiro filme de animação da história, seu irmão e cofundador foi contra e seus colegas de Hollywood riram disso, chamando de “Bobeira da Disney”. Porém, diferente de alguém que nunca correu uma maratona, mas quer desbancar o atual campeão mundial, Walt havia acumulado 11 anos fazendo curtas de animações naquela altura. Ele conhecia o ofício e como inová-lo; ele conhecia o mercado e sabia como expandi-lo.

Branca de Neve e Os Sete Anões foi revolucionário para o mundo exterior, mas para aqueles trabalhando de dentro, deve ter parecido um longo período de gestação cheio de incertezas. Para começar, o que o público leitor acharia de transformar a história original sombria e taciturna em uma feliz e alegre?
A segunda parte da vida de Disney, por assim dizer, terminou de forma ainda mais dramática.
Walt não passou uma década construindo miniparques. Em vez disso, ele viajou ao redor do mundo, conferindo o melhor dos parques de diversão que já existiam e, nem remotamente alheio a seus negócios ou aos hobbies de uma pessoa de sua idade e estatura, ficou viciado em andar em pequenos trens. Seus colegas devem ter achado que ele estava pronto para se aposentar.
Essas diversas faíscas se fundiram em um lugar chamado Disneylândia, aberto em 1955. Eu lembro a primeira vez que coloquei os pés neste parque na Califórnia em 1986. Ele me transportou magicamente para a minha infância. É engraçado porque a minha infância não tinha relação nenhuma com nada no parque já que a Revolução Cultural Chinesa (1966-1976) tinha me privado completamente de qualquer conhecimento desses clássicos infantis. Então, foi uma infância imaginária, uma infância que só tive em meus sonhos tardios.
Quando sou consultado por cineastas que querem transformar suas histórias de cinema em atrações de parques temáticos, eu pergunto: Quanto tempo duraria o impacto do seu filme? Um filme de sucesso cria uma agitação que se estende por alguns meses, e uma série de sucesso pode durar uma década. Se você quer que sua atração abranja uma geração, então você terá que agradar pelo menos duas gerações ao mesmo tempo. Em outras palavras, é preciso uma franquia, mas não qualquer franquia, e sim uma com um poder de permanência extremamente longo, para dar vida a uma montanha-russa.

A filosofia da Disney
Eu tive a sorte de visitar as instalações da Disney no sul da Califórnia em 1988 quando acompanhei um grupo de executivos da televisão chinesa. Foi quando entrei em contato com o vasto reino da Disney além dos clássicos de animação e dos parques temáticos. Foi uma loja de presentes que nos fez parar e refletir: Como construir uma marca que pode ser acolhida por pessoas de todas as idades e de todos os contextos culturais, e cujos produtos parecem alcançar um brilho de poeira estelar?
Sem eu perceber, comecei a ter interesse pela empresa pouco antes do Renascimento da Disney, quando o CEO Michael Eisner a conduzia para uma nova era dourada da animação ao produzir sucessos altamente aclamados e comercialmente lucrativos como A Bela e a Fera e O Rei Leão. Quem se importa que não eram contos originais? Shakespeare sempre confiou em outras fontes, mas foi sua reescrita que as tornou ótimas. Da mesma forma, o toque da Disney tornou suas versões totalmente diferentes dos originais, neste caso, o conto de fadas francês e Hamlet.
Basicamente, a abordagem da Disney refina quaisquer fontes de material em exaltações das virtudes comuns da humanidade, ou seja, amor e compaixão, gentileza e decência. Ao evitar uma visão limitada sobre um aspecto particular da existência humana, suas histórias, ou as versões repaginadas das fontes, ganharam a capacidade de ressoar com os públicos mais amplos possíveis. Neste sentido, a Disney é muito chata, pois ser legal geralmente invoca as últimas tendências. Mas enquanto a maioria das modinhas passa ou ficam mais tempo do que deveriam, as fantasias da Disney mostram pouco desgaste.
É claro, da perspectiva da moda, as histórias da Disney são antiquadas desde o início, ou ultrapassadas, para usar uma palavra mais gentil. Mas é exatamente por isso que seus clássicos não têm dificuldade de passar de uma cultura a outra. Não importa sua língua e tradição, sua religião ou crença política, sua etnia ou cor da pele, muito menos idade e gênero, você se sentiria confortável assistindo um desses filmes antigos. Sim, eles estão tingidos com a cor de sua época, mas há mais atemporalidade do que a maioria das adaptações “da moda” que podem valorizar um grupo demográfico enquanto ofende outro.
Agora, passamos de uma era de humanidade comum para uma ênfase em nossas diferenças. Seja do ponto de vista artístico ou sociológico, isso constitui um campo minado rico de entretenimento narrativo. Mas em termos de negócios, contar uma história com interesse de nicho tem valores comerciais muito diferentes daquelas que transcendem todos as fronteiras sociais. É um esforço que vale a pena, mas provavelmente não vale um investimento de 200 milhões de dólares cada.
Uma vez perguntei a Alan Horn, presidente da Disney Pictures na época, sobre o foco de seus filmes no lado positivo da humanidade. Ele respondeu que os cineastas da Disney tinham plena noção das coisas terríveis que aconteciam no mundo, mas eles tinham feito sua escolha não ignorando o lado sombrio, mas sim, apesar de sua existência.
Horn disse que encontraram ótimos roteiros que não combinavam com a marca e se arrependeram de vê-los escaparam por entre seus dedos. A solução, pelo visto, é construir ou incorporar outras marcas pertencentes à Disney, mas não culturalmente associadas a ela. Seria irônico colocar o logo da Disney em um filme do Quentin Tarantino, mas a Miramax, gerenciada de forma independente, prosperou na Mouse House. De maneira similar, O Conto de Aia, possivelmente o melhor show do Hulu, teria causado espanto se fosse exibido na Disney+.
Sob a liderança de Bob Iger, a Disney cresceu muito ao adquirir a Pixar, a Lucasfilm e a Marvel Studios. O que elas oferecem se acomoda confortavelmente no edifício ampliado do entretenimento familiar da Disney. No entanto, a 20th Century Fox, agora renomeada de 20th Century Studios, com a Searchlight Pictures como seu selo independente, inclui todos os tipos de gêneros e franquias. Pode ser complementar à estrutura da Disney ao criar histórias que exploram as águas turvas da dinâmica humana.

É da natureza humana torcer pelo mais fraco; também está no subconsciente de alguns querer ver os grandes caírem. Agora que a Disney conquistou constantemente mais fatias de mercado do que seus rivais de Hollywood, sua base de críticos crescerá. Mas se seguir o princípio de bom-senso de Walt, poderá ter mais vitórias do que retrocessos. A vitalidade de suas muitas marcas será reforçada quando mostrarem sua destreza diante das turbulências da indústria e das armadilhas da homogeneidade artística.
A marca da Disney foi amada no mundo todo antes da empresa se tornar um gigante de Hollywood. Quaisquer que sejam as voltas e reviravoltas que surgiram no caminho, elas foram administradas com carinho. O mesmo se aplica aos consumidores que a acolheram. Mais do que poder de compra, eles fizeram um investimento emocional em tudo que tem seu logo.
Entrar em seu segundo século será como ter uma segunda temporada de uma séria famosa. Todos queremos que continue no caminho da grandeza, com variações e atualizações, mas sem mudanças bruscas da sua essência, que é despertar a bondade, a humildade e a empatia em todos nós.
Por Raymond Zhou





Compartilhe sua opinião!
Seja a primeira pessoa a iniciar uma conversa.