Ford vs Ferrari: Além da pista Spoilers

Tendo como assunto central a corrida de Le Mans de 1966, Ford vs Ferrari te envolve em sua representação meticulosa do processo de fabricação de carros e de cenas de corrida deslumbrantes, fazendo que sinta como se estivesse no banco do motorista, com o rugido do motor em seus ouvidos.

Mas não precisa ser entusiasta de corridas ou mesmo ter conhecimento sobre carros, porque além das corridas, é também um filme biográfico focado nos personagens.

Como o título sugere, Ford vs Ferrari é sobre conflito e compromisso. Não é apenas sobre a corrida dos dois pilotos na pista de Le Mans, mas também se aprofunda em negócios vs idealismo, pureza vs impureza e dignidade vs compromisso.

Ford vs Ferrari: o rei ou o doido dos carros

Ford vs Ferrari se passa na década de 1960, após a Segunda Guerra Mundial, uma época em que a geração mais jovem de americanos não mais favorecia a produção da linha de montagem da Ford. Marcas de carros de corrida, que representavam coisas legais e chamativas, ficaram mais populares. Diante da queda nas vendas, o gênio do marketing da Ford, Lee, propõe que a empresa desenvolva uma linha de produtos de carros de corrida e adquira a Ferrari, que estava com problemas financeiros – aqui começa a rivalidade Ford-Ferrari – e as negociações foram extremamente complicadas.

Dignidade é um tema importante no filme. Henry Ford II conseguia ignorar que seu rival zombasse de sua obesidade ou da aparência de sua fábrica, mas não aceitaria ter sua dignidade desafiada. Por isso, anunciou sua intenção de derrotar a Ferrari em Le Mans usando um carro de corrida fabricado pela Ford.

Com o passar do filme, as imagens da Ford e da Ferrari mudam constantemente. No início, a Ferrari é retratada como vilã, e seus carros de corrida vermelhos parecem um espetáculo sem sentido; à medida que a corrida se aproxima, os pilotos da equipe da Ferrari aparecem como antagonistas, e toda vez que o protagonista, Carroll, provoca o dono da Ferrari, o público se sente catártico.

Em contraste, na primeira parte do filme, Henry Ford II consegue o apoio do público por seu desejo de vingança. Além disso, ele exibe notável visão de futuro e perspicácia nos negócios, mostrando respeito pela equipe do protagonista.

À medida que a linha de chegada se aproxima, o público percebe que todo o espírito esportivo, ética atlética e ideais românticos sobre velocidade são transformados em materiais promocionais e retórica de marketing. Henry Ford II se torna o capitalista que abandona a equipe para ir jantar, e é o dono da Ferrari que presta homenagem a Ken.

Carroll Shelby vs Ken Miles: o significado final da velocidade

O filme abre com um flashback da participação de Carroll na corrida de Le Mans – a névoa da pista de repente se transforma na calma luz do sol de Los Angeles – e ele, o primeiro piloto americano a vencer essa corrida, é forçado a se afastar do volante devido a problemas cardíacos.

Sua identidade de piloto e sua dedicação à carreira se tornaram a força motriz por trás de suas ações ao longo de todo o filme. Ele luta para garantir que dentro do GT40 haja alguém genuíno.

No coração de Carroll, a personificação de um verdadeiro piloto é o difícil Ken Miles, um britânico aparentemente rude que se transforma em outra pessoa ao volante. Cada corrida é um risco de destruir o carro, levando o veículo ao limite e forçando seus próprios limites físicos e mentais.

A maioria dos espectadores pode não estar familiarizada com o resultado dessa corrida. A narrativa parecia criar um suspense em torno disso, mas somos enganados quando os três carros da Ford cruzaram a linha de chegada: o filme não estava preocupado com a vitória, mas com o compromisso.

Carroll comprometeu sua saúde, recorrendo à medicação de maneira irresponsável após desistir da corrida. E quando a Ford lhe deu a oportunidade de liderar a equipe de volta à pista, acabou deixando de lado sua dignidade diante do capital e do poder.

Ken também fez concessões; depois de se tornar piloto da Ford, seu primeiro compromisso aconteceu quando os principais executivos da Ford o proibiram de participar de Le Mans no ano anterior. O impetuoso Ken não desistiu, ouviu as atualizações da corrida de seus companheiros de equipe pelo rádio e fez comentários atenciosos.

Quem realmente controla esses elegantes carros de corrida não são os pilotos segurando os volantes, mas os patrocinadores nas arquibancadas, e Ken sabia que não podia perder essa oportunidade. Seus vários compromissos foram escolhas feitas para garantir sua oportunidade como piloto de corrida.

Para Ken, a pista não é uma linha reta apontando para o final, sua verdadeira arena é uma jornada incessante – é por isso que ele não precisa vencer, só precisa agarrar a oportunidade de segurar o volante, porque, depois disso, ele não para mais. Então, no impulso final de Ken, não há outros competidores, apenas ele, dirigindo em direção a uma luz no deserto.

É por isso que a verdadeira história contada por Ford vs Ferrari está além da pista.

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