“Não estou apenas apreciando o filme em si, mas também o talento da direção.”, disse um fã do filme Aftersun , dirigido por Charlotte Wells, que recebeu muitos elogios no Festival de Cinema de Cannes do ano passado.
Seguindo o conselho da diretora, não gastei tempo aprendendo sobre a história ou vendo o trailer antes de assistir a Aftersun para garantir a melhor experiência sem nenhum conhecimento prévio. Foi uma boa sugestão, porque logo me vi entregue à atmosfera aconchegante e calorosa do filme que acompanha Sophie (Frankie Corio), de 11 anos, e seu pai, Calum (Paul Mescal), em uma viagem de ônibus para Torremolinos, na Turquia. É como se eu tivesse me juntado à garota para nadar, mergulhar, jogar bilhar, aplicar protetor solar, tomar banho de sol enquanto observava o céu, voar de parapente como passarinhos e vivenciar as agitações da adolescência na ausência do pai.
Embora depois da filmagem no início do filme venha uma tomada com flashes, tive um sentimento inexprimível, entrelaçado com curiosidade, mas que logo foi suprimido e deixado de lado. No entanto, em um momento posterior, possivelmente devido a novas cenas com flashes, esse sentimento voltou. Dessa vez, eu sabia que não podia ignorá-lo, pois as lágrimas brotaram involuntariamente. A viagem de férias, a época mais feliz para Sophie, acaba sendo a mais dolorosa para o pai. O mesmo tempo e espaço evocam emoções e memórias contrastantes, com Sophie completamente inconsciente do que seu pai estava passando até anos depois, quando ela, adulta, assiste à filmagem da época.
Decidi assistir pela segunda vez, tentando descobrir os indícios sutis da dor do pai que eu havia perdido na primeira vez. Agora eu não estava no ponto de vista daquela garotinha que, embora inteligente e sensível, era jovem demais para entender o que um adulto não dizia. Em vez disso, fiquei no lugar da Sophie adulta que tenta restabelecer uma conexão com o pai melancólico e encontrar a tristeza e a dor escondidas sob seu sorriso forçado por meio daquelas memórias confusas.
E não é de surpreender que eu chorei ainda mais ao perceber cada detalhe.
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Nessa cena, Sophie fala sobre os momentos felizes que ela viveu enquanto Calum está no banheiro removendo o gesso e os curativos e, acidentalmente, se fere com uma tesoura.
Uma parede separa pai e filha em dois mundos: o esquerdo espaçoso em tons amarelos quentes e o direito apertado, estreito e sufocante em tons azuis frios. O contraste de cores, bem como a divisão do espaço, indicam os diferentes estados de espírito de Sophie e Calum.
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Depois de mergulhar, Calum encontra um instrutor de mergulho. Ao aprender sobre a vasta história de vida do instrutor, ele subconscientemente responde: "Não consigo me ver aos 40, para ser honesto. Surpreso por ter chegado aos 30.". Com essas palavras, ele levanta a cabeça, com os olhos focados em algo não muito longe, e uma sensação de admiração surge em seu rosto.
A cena seguinte não mostra o que Calum viu, mas provavelmente é sua filha voltando depois de pegar a filmadora.
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Calum atravessa a rua como se não houvesse mais ninguém, sem prestar atenção ao trânsito, embora um ônibus quase o atropele antes que o motorista freie e buzine. O pai simplesmente permanece indiferente a tudo ao seu redor. Talvez ele queira morrer? Ou talvez esteja preso no próprio mundo de sentimentos, exausto e incapaz de reagir ao mundo exterior?
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"Você nunca se sentiu como se tivesse vivenciado um dia incrível e, ao chegar em casa, começa a sentir cansaço e tristeza? Como se seus ossos não funcionassem mais? Eles estão apenas cansados, e tudo está cansado.". Sophie expressa livremente seus sentimentos ao pai. É normal e natural sentir cansaço depois de sair, seja você criança ou adulto, mas Calum não parece sentir o mesmo. Ele continua abaixando a cabeça, cospe a espuma da pasta de dente em direção ao espelho e dá uma resposta aparentemente comum: “Estamos aqui para nos divertir.”
À medida que os dois saem da tela, a câmera não os segue, mas vagueia na escuridão como um fantasma, até que a cena se ilumina aos poucos e a espuma da pasta de dente salta em nossos olhos. Já secou, pendurada no espelho como a encarnação de uma grande tristeza. Talvez para Calum, a fadiga não seja um produto da viagem, mas uma força avassaladora que existe o tempo todo.
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As sequências sugerem a tensão sempre presente nas férias. Com dificuldade para conter as tentativas de suicídio, o pai não consegue deixar de se imaginar caindo como um parapente. Enquanto Sophie se diverte, ela também sente uma forte inquietação no ar. Há uma sensação de fragilidade durante toda a cena.
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Esse é um dos momentos mais dolorosos. Sophie convida Calum para cantar com ela no palco, mas é rejeitada. Os dois minutos parecem tão longos que o humor de ambos aos poucos desaparece. Calum dobra um braço por cima do peito e apoia o queixo com a outra mão, representando uma postura levemente defensiva para mostrar sua rejeição. No entanto, seus olhos o traem com culpa em relação à filha.
Sophie está quase na mesma posição que Calum, e sua expressão muda visivelmente de expectativa para constrangimento e desapontamento. Esse é um momento em que pai e filha estão frente a frente, mas se sentem distantes.
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Após os dois minutos constrangedores, uma briga começa. Calum entra sozinho no mar profundo e imenso. Tudo estava silencioso, exceto pela maré ensurdecedora quebrando na areia da praia, como se estivesse convocando a morte. Segundo interpretações, Calum nunca mais volta do mar e tudo o que acontece depois é fantasia de Sophie.
Senti uma melancolia inexplicável na primeira vez que assisti a Aftersun. Foi só quando assisti pela segunda vez que identifiquei a dor não dita e percebi que a diretora espera dizer que parece que nunca entendemos verdadeiramente nossos pais e mães ou pessoas mais velhas que amamos. Conforme vamos crescendo, eles mergulham cada mais vez na maré inevitável da vida, que não conseguiremos compreender até um dia no futuro, quando tudo fizer sentido.



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